No calendário de concessões rodoviárias federais de 2026, dois leilões já têm data marcada e devem concentrar a atenção do setor no primeiro semestre. O primeiro é o da Rota Gerais, em 31 de março, e o segundo é o da Rota dos Sertões, em 28 de maio. Somados, os projetos superam 1.200 quilômetros e devem testar o apetite do mercado por projetos com alto volume de obras e metas de serviço.
A Rota Gerais (BR-116/251/MG) reúne 734,9 quilômetros. O traçado liga a divisa BA/MG a Governador Valadares (MG), inclui o contorno de Teófilo Otoni (MG) e alcança o norte de Minas pela BR-251, no trecho de Medina (MG) a Montes Claros (MG). A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) trata o lote como o maior sob gestão federal no Estado e estima investimentos de cerca de R$ 12 bilhões. O edital prevê nove praças de pedágio, com tarifa-teto de R$ 0,12644 por quilômetro em pista simples e R$ 0,17702 por quilômetro em pista dupla, na data-base de abril/2023.
O projeto combina ampliação de capacidade e intervenções de segurança. Estão previstos 186,6 quilômetros de duplicação, 159,9 quilômetros de faixas adicionais, 16,9 quilômetros de contorno, além de obras de arte especiais e adequações operacionais. O escopo inclui, ainda, passarelas, passagens de fauna, paradas de ônibus e programas socioambientais. A expectativa divulgada para empregos, somando efeitos diretos e indiretos, chega a aproximadamente 127,5 mil ao longo do contrato.
O caminho até o edital passou por ajustes relevantes. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) atualizou os estudos após recomendações do Tribunal de Contas da União (TCU). A auditoria apontou inconsistências em estimativas de custos e em parâmetros técnicos. Entre as determinações, houve pedido de revisão de custos de mão de obra em praças de pedágio e balanças, com potencial de elevar o custo total do projeto, além de ajustes em distâncias médias de transporte. Com o Acórdão nº 2726/2025 do TCU, o processo recebeu aval para seguir, e a ANTT aprovou o Edital nº 5/2025.
O leilão da Rota Gerais será disputado pelo critério de menor tarifa de pedágio associado à curva de aporte. Em um ano que tende a concentrar debates sobre qualidade regulatória e execução de investimentos, o resultado do certame pode funcionar como termômetro inicial para os lotes seguintes.
A Rota dos Sertões (BR-116/BA/PE), por sua vez, é o principal projeto federal do semestre no Nordeste. A concessão abrange 502 quilômetros, combinando trechos da BR-116 na Bahia e em Pernambuco e parte da BR-324 no anel viário de Feira de Santana (BA). A ligação entre Salgueiro (PE), na conexão com a BR-232, e o contorno de Feira de Santana, concentra tráfego de cargas e deslocamentos regionais. O contrato também é de 30 anos e prevê investimentos de R$ 4,3 bilhões, com custos operacionais estimados em R$ 4,4 bilhões. A taxa interna de retorno indicada na modelagem é de 12,49%.
O pacote de intervenções mira fluidez e segurança. A modelagem prevê duplicação de 108,2 quilômetros, 5,16 quilômetros de faixas adicionais, 44,52 quilômetros de vias marginais e 107,06 quilômetros de acostamentos, além de 12 passarelas e 24 paradas de ônibus. Há também previsão de contorno viário em Serrinha (BA), medida associada à redução de conflitos urbanos e ao ganho de previsibilidade para quem cruza o trecho. O TCU aprovou o projeto em sessão de 30 de julho de 2025, e a ANTT publicou o Edital nº 1/2026.
O critério de julgamento da Rota dos Sertões repete a lógica de menor tarifa, com curva de aporte vinculada ao deságio. A tarifa de referência indicada na data-base de abril de 2023 é de R$ 0,0953 por 100 quilômetros em pista simples e R$ 0,1239 por 100 quilômetros em pista dupla. O desenho busca combinar desconto ao usuário e mecanismo de suporte financeiro, o que costuma ampliar o leque de estratégias de proposta e tende a exigir disciplina na execução para evitar atrasos e renegociações precoces.
Com esses dois editais na rua, o setor ganha tração em 2026. O desempenho desses certames deve indicar se a carteira federal consegue atrair lances competitivos em projetos de grande porte e, ao mesmo tempo, manter o padrão de exigência técnica definido na modelagem e no controle externo.




