A inteligência artificial vem ganhando espaço na rotina de empresas que atuam com serviços de consultoria. Consultorias empresariais, jurídicas e financeiras já utilizam ferramentas capazes de resumir documentos, comparar versões, sugerir redações, estruturar apresentações e apoiar análises preliminares. Em um mercado em que agilidade, capacidade analítica e escala fazem diferença, é natural que essas soluções despertem interesse.
Os ganhos de produtividade são concretos e reais. A tecnologia pode tornar mais rápida a elaboração de minutas, relatórios, apresentações e materiais de apoio, além de facilitar a organização de dados e a identificação inicial de inconsistências.
O ponto de atenção está em outro lugar: o ganho operacional não pode ser confundido com suficiência técnica.
Esse risco ficou evidente em um caso recente envolvendo uma grande empresa de auditorias. Em 2025, a auditora concordou em devolver parte dos valores pagos pelo cliente após a identificação de referências inexistentes e citação judicial fabricada em um relatório preparado com uso de IA, fenômeno popularmente conhecido como “alucinação da IA”. O episódio mostrou, de forma muito prática, que a tecnologia pode acelerar a produção, mas não substitui revisão humana qualificada e técnica.
Nos serviços de consultoria e auditoria, a qualidade da entrega não depende apenas de boa redação ou rapidez. Ela depende de interpretação de contexto, leitura crítica, compreensão do negócio do cliente e avaliação de riscos que não aparecem isoladamente em uma cláusula, em um relatório ou em uma planilha.
Uma ferramenta pode produzir um texto formalmente convincente e, ainda assim, falhar no ponto mais importante: a aderência ao caso concreto.
É justamente aí que mora um dos principais riscos do uso descuidado da IA. A ferramenta pode reproduzir soluções genéricas para situações que exigem personalização, sugerir conclusões imprecisas, ignorar nuances regulatórias, suavizar riscos relevantes ou criar uma aparência de consistência que não resiste a uma análise técnica mais rigorosa.
Em consultorias e auditorias, esse tipo de falha pode gerar prejuízos financeiros, decisões mal orientadas, questionamentos contratuais e exposição a riscos jurídicos, como ações, rescisões e vazamento de dados.
É neste último ponto que há necessidade de muita atenção: as informações que alimentamos nessas plataformas. Serviços de consultoria e auditoria costumam lidar com contratos, relatórios, estratégias comerciais, dados financeiros, documentos societários, pareceres e outros materiais produzidos a partir de informações sensíveis de clientes.
Não raro, esses arquivos também contêm dados pessoais de representantes, empregados, terceiros e parceiros de negócio. Quando esse conteúdo é inserido em ferramentas de IA sem critérios claros, a discussão deixa de ser apenas sobre produtividade e passa a envolver confidencialidade, segurança da informação e tratamento adequado de dados.
Esse cuidado é ainda mais importante porque a adoção dessas ferramentas, em muitos casos, ocorre de forma descentralizada. Um profissional utiliza a plataforma para resumir uma proposta, outro para revisar um contrato, outro para reorganizar um relatório interno. O ganho de tempo é imediato, mas a empresa pode perder controle sobre o ciclo da informação, sobre a qualidade da saída produzida e sobre o nível de exposição criado por esse uso pulverizado.
No Brasil, esse debate já entrou de forma clara na agenda regulatória. A ANPD incluiu “inteligência artificial e tecnologias emergentes no contexto do tratamento de dados pessoais” entre os temas prioritários de fiscalização para o biênio 2026-2027. Isso reforça que o uso de IA, especialmente em ambientes intensivos em informação, deve ser acompanhado de cautela e governança.
Por isso, a pergunta mais importante para empresas de consultoria não é se a inteligência artificial deve ou não ser utilizada, mas sim em que condições ela pode ser empregada com segurança e utilidade real.
O uso responsável da tecnologia depende de diretrizes mínimas de governança. Isso inclui definir que os dirigentes criem procedimentos definindo: i) quais ferramentas podem ser utilizadas; ii) quais tipos de documentos podem ser submetidos à análise automatizada; iii) quando informações sensíveis devem ser anonimizadas; e iv) quais fluxos exigem revisão humana obrigatória antes de qualquer envio ao cliente ou tomada de decisão relevante.
No ambiente das consultorias e auditorias, a inteligência artificial pode gerar valor real quando melhora a execução sem comprometer o julgamento. Ela pode acelerar rotinas, organizar informações e apoiar processos internos com grande utilidade.
Porém, não substitui discernimento técnico, responsabilidade profissional nem compreensão contextual do negócio atendido. Em setores movidos por confiança, técnica e informação sensível, eficiência só se transforma em vantagem competitiva quando vem acompanhada de revisão humana, governança informacional e segurança jurídica, por meio de procedimentos internos que garantam a segurança de dados e confiabilidade das informações produzidas.




